Val Moreira. Nova marca de vinhos do Douro em busca da consagração

No enquadramento tradicional da produção de vinhos do Douro e vinhos do Porto, na localidade do Marmelal, concelho de Armamar, no foz do Rio Tedo, nasceu e está a afirmar-se uma marca que contribui para a renovação da produção desta região vinhateira, Val Moreira. A nova chancela está a fazer o seu percurso e chamou a atenção de enólogos e enófilos, de que são testemunho diversas notas de prova e comentários vindos a público, entre outras publicações e reportagens na imprensa da especialidade.

Os vinhos surgiram na Quinta do Val Moreira, que merece uma visita, e se dá a conhecer em múltiplas vertentes, em particular a sua história, enraizada na região. De tal forma que a designação da propriedade foi encontrada num mapa datado do século XIX, da autoria de Joseph James Forrester. O empresário inglês radicou-se em Portugal e dedicou-se à vinicultura no Porto, distinguindo-se nesta atividade e foi-lhe mais tarde outorgado o título de barão por D. Fernando II, em 1855.

O projeto nasceu da iniciativa de dois empreendedores, Jorge Rebelo de Almeida, presidente do Grupo hoteleiro Vila Galé e António Parente, presidente do Grupo Madre. Unidos por uma amizade de longa data, o gosto pela terra e a vontade de fazer coisas, não raro trocaram ideias sobre o potencial do País, em prol do desenvolvimento. E também sobre a necessidade de investimento em particular no interior, como acontece neste caso, e a propósito do que se referiu o primeiro à Revista de Vinhos. Perante a possibilidade de criação de uma nova marca, impunha-se uma estratégia de diferenciação.

Empenhados em criar algo que não fosse apenas mais uma marca e atendendo ao contexto de grande competição no setor, ambos pretendiam algo que se destacasse. António Parente refere-se à iniciativa, recordando o objetivo empresarial e as circunstâncias pessoais que o rodearam: «Um projeto que reúne o objetivo de um vinho diferenciado à consolidação de uma amizade!».

Numa incansável atenção às oportunidades, viram na Quinta do Val Moreira o local adequado para lançar uma nova marca turística e vínica.

 

A propriedade

 

Ambos têm historial na vitivinicultura, para não falar na hotelaria. Jorge Rebelo de Almeida com os vinhos da Casa Santa Vitória, em Beja, propriedade na qual se dedica igualmente à olivicultura, no âmbito de um dos principais grupos hoteleiros portugueses, Vila Galé, com expressão em Portugal e no Brasil. Por seu turno, António Parente, na Quinta de São Sebastião, em Arruda dos Vinhos, um dos principais produtores do concelho, com a Multiwines, enquadrado num grupo empresarial multifacetado, o Grupo Madre. Com alcance internacional, dedica-se a um leque diversificado de atividades, com destaque para o Audiovisual, a Hotelaria e o Imobiliário.

Foi com esta bagagem e experiência que lançaram a marca Val Moreira, naquela propriedade, com 23 hectares de vinha, através da criação de uma nova empresa em parceria, a Xvinus, concretizando assim a ambição antiga de expansão no Douro.

Âncora do projeto, a Quinta do Val Moreira, adquirida em 2018, que recuperaram ao longo de diversas fases e onde desenvolvem o eno e agroturismo na unidade hoteleira Vila Galé Douro Vineyards. O local não podia ter sido mais bem escolhido, pois é privilegiado, tanto a nível paisagístico, como testemunho da intervenção humana.

Em homenagem a gerações que votaram trabalho, extrema dedicação e sacrifício na transformação da paisagem, de forma a torná-la produtiva, José Saramago dedica atenção às margens do Douro, em Viagem a Portugal (Lisboa: Círculo de Leitores, 1981), onde «a arte do socalco atinge a suma perfeição». Sublinha o contraste entre o antes e o depois desta intervenção nas encostas do rio:

Tempo houve, antiquíssimo, em que estas montanhas de xisto teriam sido assustadoras e eriçadas massas (…). Depois veio o homem e pôs-se a fabricar terra. Desmontou, bateu e tornou a bater, fez como se esfarelasse as pedras entre as palmas grossas das mãos, usou o   montante e o alvião, empilhou, fez os muros, quilómetros de muros, e dizer quilómetros será dizer pouco, se contarmos todos os que por esse país foram levantados para segurar a vinha, a horta, a oliveira.

De todo este historial a Quinta do Val Moreira é testemunho.

A propriedade é-nos apresentada ao desenvolver-se no lado norte do Marmelal, povoação antiga com foral do século XII. Parte das vinhas da quinta situam-se no outro vale afluente do Douro, uma vez que se salienta o facto de possuir uma das maiores linhas de água entre o Marmelal e a Folgosa, chamado Valmor.

Sublinha-se também a existência de dois marcos graníticos, hoje classificados como imóveis de interesse público, um dos atrativos patrimoniais do local. Foram mandados construir pelo Marquês de Pombal, em 1757, com o objetivo de demarcar a zona dos vinhos generosos do Douro. Passaram a estar sob a jurisdição da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas Douro, que consistiu na criação da primeira região demarcada de vinhos do mundo.

 

 Os vinhos

 

Quando se fala dos vinhos Val Moreira, fala-se na «nova essência do Douro», como se lê na página de boas-vindas do site desta marca, remetendo tanto para um valor matricial, representado pelos vinhos do Douro e vinhos do Porto, como para a novidade desta chancela, surgida em pleno Douro vinhateiro. A caracterização dos vinhos Val Moreira salienta os solos em socalcos xistosos, a sua autenticidade e alta qualidade.

A gama da marca é integrada por vinhos brancos, tintos e vinhos do Porto, criados por uma equipa de três enólogos, Bernardo Cabral, ex-residente a atual consultor na Quinta de Santa Vitória, Filipe Sevinate Pinto, enólogo da Quinta de São Sebastião, e Ricardo Gomes, o mais novo desta equipa, que acompanha o quotidiano da produção. Com base na respetiva experiência diversificada e adquirida noutras regiões, partiram para as atuais marcas com uma postura de grande abertura, que levou em conta a diversidade de castas e das parcelas do terreno, as respetivas exposições e solos para a criação de vinhos de «patamares superiores». Em suma, respeitando as características da região, com o objetivo principal da criação de vinhos DOC. As castas para o vinho tinto que o grupo destaca são a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Amarela e Vinhas Velhas. Para o vinho branco o destaque recai nas Vinhas Velhas, bem como Arinto, Rabigato, Folgazão, Sercial, Viosinho e Alvarinho. A primeira colheita dava-se em 2018 e os vinhos foram colocados no mercado a partir do ano seguinte.

Surgiram assim os Brancos 2018 e 2019, os Tintos 2017 e 2018 (todos de denominação DOC Douro). As notas de prova da imprensa especializada salientam o Reserva 2019 Branco e o Reserva 2018 Tinto.

Quanto aos vinhos do Porto, figuram o Extra Dry White (2019), «apurado loteamento de vinhos do Porto Tawny com idade média de 5 anos, superior qualidade, envelhecidos em cascos, da Região Demarcada do Douro», e o Porto 10 Anos (2019), «apurado loteamento de vinhos do Porto Tawny com idade média de 10 anos, superior qualidade, envelhecidos em cascos». A estes junta-se ainda o Porto 20 anos.

Para dá-los a conhecer, foram criadas visitas à vinha e provas, sujeitas a marcação prévia, no que se propõe uma autêntica «experiência sensorial», guiada por uma equipa especializada e conhecedora.

A complementar as provas, a Quinta proporciona ainda a oportunidade de combinar os vinhos com a gastronomia, no restaurante desta propriedade, em ambiente em que se pode ainda desfrutar da magnífica panorâmica que o rodeia, curiosa obra arquitetónica que recria os socalcos da vinha.

– Val Moreira Branco 2018 DOC Douro

– Val Moreira Branco 2019 DOC Douro

– Val Moreira Tinto 2017 DOC Douro

– Val Moreira Tinto 2018 DOC Douro

– Porto Extra Dry White Região Demarcada do Douro

– Porto 10 anos Região Demarcada do Douro

– Porto 20 anos Região Demarcada do Douro

 

 Notas de prova

 

A nota de prova da Revista de Vinhos para o Altitude 734M 2018 refere o «apuro e largo potencial de evolução», considerando que se trata de «uma aposta ganha».

Sobre o mesmo vinho, o site ‘Cegos por Provas’ deixa o comentário: «um vinho peculiar feito de uma única vinha muito velha da Mêda, com 80% de uvas tintas e 20% de uvas brancas, situada a 734 mts de altitude (daí o nome). Aqui subimos também em termos de complexidade e diversidade de impressões, pois temos uma cronologia de pequenos efeitos que depois se fecham num todo: uma parte vegetal seguida de fruta fresca, depois a acidez e ainda uma área onde tudo se volatiliza e nos faz voltar ao início».

O mesmo autor refere-se ao Reserva branco 2019 e tinto 2018, salientando «o bom controlo de barrica que é nota dominante em todos os vinhos, parece haver uma procura de elegância sem obsessão, deixando as castas “intrometerem-se” entre si, numa aproximação menos científica e mais de intuição».

Entre notas de prova e comentários, os vinhos desta marca têm suscitado grande número de publicações, em revistas da especialidade e nas redes sociais. Neste último âmbito, destaque-se o sommelier Guilherme Corrêa, no Instagram, que destaca a vertente técnica dos vinhos Val Moreira, mas não só: «Brancos e tintos revelam aquelas características que cada vez mais busco para a minha adega pessoal: refinamento, madeira transparente, tensão na textura, mineralidade, tipicidade e “factor drama”.

A marca está lançada, o rumo é a consagração.